Flybondi para de voar e deve indenização a 700 demitidos
- Marcelo Bueno

- 21 de ago.
- 4 min de leitura
A crise que começou em julho voltou pior: agora a companhia não vende passagem nem no Brasil, e parte do quadro ativo está com salário atrasado desde junho.
A Flybondi, low-cost argentina que também vende trechos entre Brasil e Argentina, completou nessa mesma semana 12 dias consecutivos sem operar voos comerciais, contados a partir de por volta de 6 de agosto. No Brasil, a Agência Nacional de Aviação Civil já havia suspendido toda a comercialização de passagens da empresa no dia 6 de agosto, e mais de 700 ex-funcionários seguem há mais de três meses sem receber indenização de demissão, segundo denúncias reunidas pela imprensa argentina.
O essencial:
A Flybondi está há 12 dias consecutivos sem operar voos comerciais, contados desde por volta de 6 de agosto de 2026.
O site oficial da empresa saiu do ar na tarde de terça-feira, 18 de agosto, com erro "504 Gateway time-out".
A Anac suspendeu em 6 de agosto toda a venda de passagens da Flybondi no Brasil, incluindo a rota Buenos Aires-Rio de Janeiro, depois de um índice de cancelamento de cerca de 79% no período avaliado.
Mais de 700 ex-funcionários estão há mais de três meses sem indenização, e parte do quadro ainda ativo tem salários de junho e julho em atraso.
De janeiro a agosto de 2026 a companhia cancelou mais de 2.400 voos e afetou cerca de 383 mil passageiros.

O que aconteceu com a Flybondi em agosto de 2026
A paralisação começou por volta de 6 de agosto e não teve anúncio de retomada. Os voos comerciais simplesmente pararam de sair, e o silêncio da empresa se estendeu por quase duas semanas até o site cair também. O Aerojota registrou o mesmo quadro: companhia sem voar, canal oficial de vendas fora do ar.
Parte da frota está parada no Brasil, em manutenção em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Aviões em manutenção prolongada não geram receita e continuam custando. Esse detalhe explica boa parte do tamanho do buraco.
Passageiros que já tinham bilhete emitido ficaram no pior dos mundos. Sem voo, sem site pra abrir pedido e sem canal de atendimento funcionando, o reembolso vira uma corrida atrás de um interlocutor que não existe. As reclamações por reembolso subiram de 26,6% para 42,7% do total entre dois períodos recentes de 30 dias.
Por que a Anac proibiu a venda de passagens da Flybondi no Brasil
A restrição brasileira não nasceu em agosto. Ela começou no fim de julho, quando a Anac identificou um índice de cancelamento de cerca de 79% no período avaliado e suspendeu a venda de passagens da Flybondi para três destinos: Florianópolis, Maceió e Salvador. A empresa tinha até 4 de agosto pra regularizar a operação.
O prazo venceu sem cumprimento. Em 6 de agosto, segundo o Brasil Turis, a agência ampliou a punição e suspendeu toda a comercialização da Flybondi no mercado brasileiro, incluindo a rota Buenos Aires-Rio de Janeiro. Na prática, desde essa data nenhum viajante brasileiro consegue comprar passagem da companhia.
O número que sustenta a decisão merece atenção. Cancelar 79% dos voos avaliados significa que a maioria esmagadora do que foi vendido não voou. Não é atraso pontual nem problema meteorológico: é uma operação que parou de entregar o produto.
Mais de 700 demitidos e três meses sem indenização
Aqui está a parte que mais interessa a quem quer trabalhar em aviação. Mais de 700 ex-funcionários da Flybondi foram demitidos e continuam sem receber a indenização devida há mais de três meses, de acordo com denúncias de ex-trabalhadores e da APLA, a Associação de Pilotos de Linhas Aéreas argentina.
E não para nos demitidos. Parte do quadro que ainda está formalmente empregado acumula salários de junho e julho em atraso, segundo as mesmas denúncias. Ou seja: quem ficou também não está recebendo.
A APLA, comandada por Pablo Biró, atacou ainda o modelo trabalhista das low-cost e fez uma denúncia específica sobre representação. Segundo a entidade, a empresa incentivou a criação de um sindicato próprio, um "gremio armado pela empresa", para não precisar negociar com a representação real dos trabalhadores. Quando quem senta do outro lado da mesa foi escolhido pela própria companhia, o trabalhador negocia sozinho sem saber.
A paralisação de julho já tinha acendido o alerta
O que acontece agora é o segundo capítulo. Entre 7 de julho e meados do mês, a Flybondi suspendeu "praticamente todos" os tripulantes de cabine e pilotos, com suspensão de contrato planejada até 30 de setembro de 2026 para parte do quadro.
A retomada de 14 de julho foi parcial e frágil. A empresa voltou a voar com apenas 4 dos 13 Boeing 737-800 da frota, depois de fechar um acordo de combustível com a YPF. Menos de um mês depois, parou de novo.
O acumulado do ano dá a dimensão. De janeiro a agosto de 2026, a Flybondi já havia cancelado mais de 2.400 voos e afetado cerca de 383 mil passageiros. Isso é um aeroporto médio inteiro de gente com viagem quebrada.
O que ainda não está confirmado
Até o fechamento desta matéria, a Flybondi não havia confirmado nova data de retomada dos voos. A informação mais recente localizada é de 19 de agosto, e naquele momento a empresa seguia sem voar, sem site funcional e com a venda de passagens no Brasil suspensa pela Anac desde 6 de agosto.
Também não há valor total consolidado da dívida trabalhista da companhia. O que está apurado é o número de trabalhadores atingidos, mais de 700, e o tempo de atraso, mais de três meses, sem cifra global fechada.
Um último ponto de honestidade: o quadro de funcionários afetado é majoritariamente argentino, e não foi possível confirmar se algum comissário ou piloto brasileiro está entre os atingidos. Não vou afirmar nada que a apuração não sustente.
Fontes consultadas e checadas para esta reportagem:
Aerojota, "Flybondi para de voar, site fora do ar", agosto/2026, https://aerojota.com.br/flybondi-para-de-voar-site-fora-do-ar/
PANROTAS, "Crise da Flybondi: site sai do ar após 12 dias sem voos e passageiros cobram reembolsos", 18/08/2026, https://www.panrotas.com.br/aviacao/empresas/2026/08/crise-da-flybondi-site-sai-do-ar-apos-12-dias-sem-voos-e-passageiros-cobram-reembolsos_231198.html
Brasil Turis, "Flybondi perde autorização para vender passagens no Brasil", 06/08/2026, https://brasilturis.com.br/2026/08/06/flybondi-perde-autorizacao-para-vender-passagens-no-brasil/
Mundo Gremial, "Crisis en Flybondi: sindicato de pilotos apunta al modelo laboral de las low-cost y denuncia gremios armados por la empresa", agosto/2026, https://mundogremial.com/crisis-en-flybondi-sindicato-de-pilotos-apunta-al-modelo-laboral-de-las-lowcost-y-denuncia-gremios-armados-por-la-empresa/



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