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Investigação do Cenipa aponta falhas cruzadas de pilotos, Voepass e Anac em queda de avião

  • Foto do escritor: Marcelo Bueno
    Marcelo Bueno
  • 8 de jul.
  • 3 min de leitura

Minuta do relatório final detalha negligência institucional, problemas no sistema de degelo e distração na cabine antes do acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo.

Uma combinação de falhas humanas, omissões organizacionais da Voepass e fragilidades na fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu diretamente para a queda do voo 2283 em Vinhedo (SP). A conclusão consta na minuta do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). O documento detalha como problemas técnicos conhecidos e desvios operacionais foram normalizados pela companhia aérea antes da tragédia que matou 62 pessoas em agosto de 2024.

O conteúdo da investigação técnica indica que o acúmulo severo de gelo nas asas causou a perda de sustentação do ATR 72-500. No entanto, o órgão destaca que o acidente foi o resultado de uma construção de negligência de longo prazo. A tripulação e os setores técnicos tinham conhecimento prévio de falhas no sistema de degelo da aeronave, mas os voos continuaram sem correções adequadas.


Distração na cabine e cegueira por desatenção


Os dados extraídos dos gravadores de voz revelam que os pilotos permaneceram em conversas particulares, sem relação com o voo, durante parte significativa do trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). Esse comportamento reduziu drasticamente o monitoramento das condições meteorológicas. A cabine ignorou os sinais externos de formação de gelo e os alertas automáticos emitidos pelos sistemas de bordo da aeronave.

De acordo com o Cenipa, essa falta de foco favoreceu fenômenos psicológicos descritos como "cegueira" e "surdez" por desatenção. A tripulação não reconheceu a gravidade da situação a tempo, falhou em coordenar ações de emergência e não solicitou uma descida imediata aos órgãos de controle. Além disso, a investigação aponta que um dos pilotos enfrentava problemas pessoais graves, o que comprometeu seu estado emocional e sua capacidade de julgamento no momento crítico.


Cultura de desvios e omissão regulatória


O relatório faz duras críticas à cultura de segurança da Voepass. A investigação descobriu que falhas mecânicas observadas em voos anteriores não eram anotadas nos diários de bordo oficiais. Essa prática impedia que os setores de manutenção realizassem os reparos obrigatórios ou retirassem o avião de circulação. Os desvios de procedimento tornaram-se rotina aceita dentro da empresa, diminuindo a percepção real dos riscos operacionais.

A Anac também é responsabilizada pelo órgão investigador. Auditorias realizadas na Voepass antes da queda já haviam identificado uma série de não conformidades na manutenção das aeronaves e comunicações informais de pane. Apesar dos relatórios internos apontarem as irregularidades, a agência reguladora não adotou sanções ou medidas firmes para conter os riscos gerados pela conduta da empresa.


Recomendações globais e andamento do caso


A dinâmica do acidente envolveu a perda total de controle do turboélice, que entrou em uma manobra conhecida como "parafuso chato" antes de colidir contra o solo de um condomínio residencial. Por envolver uma aeronave projetada na França e motores canadenses, o Cenipa enviou a minuta do relatório para revisão das autoridades da França e do Canadá, seguindo os protocolos internacionais de aviação civil.

O relatório deve sugerir uma recomendação global de segurança para que operadores substituam um componente específico do sistema de alertas dos modelos ATR em todo o mundo. Paralelamente à investigação técnica do Cenipa, a Polícia Federal finaliza o inquérito criminal que deve indiciar os responsáveis pela cadeia de erros que culminou no desastre.

Contudo, o Cenipa informou que só emitirá um posicionamento público e oficial após a publicação definitiva do relatório final, que aguarda as considerações das autoridades francesas e canadenses.


Fontes consultadas e checadas para esta reportagem:

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