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CENIPA descarta fadiga e reabre briga por jornada

  • Foto do escritor: Marcelo Bueno
    Marcelo Bueno
  • 27 de jul.
  • 3 min de leitura

O relatório final saiu, e a frase que mais mexeu com a categoria não foi sobre gelo nem sobre manutenção. Foi sobre fadiga.


Reprodução
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Se você sonha em vestir o uniforme, presta atenção nesta história. Ela não é sobre um acidente do passado: é sobre quantas horas você vai passar acordado dentro de um avião nos próximos anos.

O CENIPA divulgou em 23 de julho de 2026 o relatório final sobre a queda do voo Voepass 2283, o ATR 72 que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024, com 62 mortos. São 266 páginas e 19 fatores contribuintes, 15 deles com influência direta na ocorrência e 4 classificados como indeterminados. Entram falhas de manutenção, falha no sistema de degelo, decisões operacionais e deficiências de fiscalização. A ANAC informou que vai analisar as recomendações.


O que o relatório diz sobre cultura de segurança


O achado mais duro do documento não é técnico, é cultural. O CENIPA concluiu que existia na empresa uma normalização do desvio.

Traduzindo para a vida real: segundo o relatório, tripulações recebiam alertas dos sistemas de bordo e os desativavam, detectavam falhas e não registravam. O documento fala de uma cultura de não reportar panes para que a aeronave continuasse voando. Aponta ainda fragilidades na supervisão da manutenção e na gestão de segurança operacional.

Guarda isso, porque é a lição que você leva para a carreira inteira: o problema quase nunca é um profissional ruim. É um ambiente que ensinou o profissional a não reportar.


Por que a conclusão sobre fadiga dividiu a categoria


Aqui está o ponto que gerou o barulho. O relatório final descartou a fadiga como causa deste acidente, atribuindo os momentos de distração na cabine a sobrecarga de estímulos e a aspectos emocionais.

E existe outro documento oficial nessa história. A auditoria do Ministério do Trabalho e Emprego feita depois do acidente identificou falhas graves na gestão interna da Voepass, incluindo descansos reduzidos, controle deficiente de jornada e lacunas no gerenciamento de risco de fadiga.

O Sindicato Nacional dos Aeronautas sustenta essa segunda leitura. Em nota de 8 de julho, após o vazamento de conteúdo do laudo preliminar, a entidade condenou a divulgação prematura de material incompleto e rejeitou a tentativa de atribuir o acidente a erro dos pilotos.

Eu preciso ser honesto com você sobre isso, porque vai aparecer distorcido por aí: as duas afirmações são verdadeiras. O CENIPA responde se a fadiga causou aquele voo específico. O Ministério do Trabalho descreveu como era trabalhar naquela empresa. São perguntas diferentes, e quem juntar as duas numa frase só vai errar.


O que muda para quem quer ser comissário de bordo


Agora a parte que a imprensa quase não contou, e que é justamente a sua.

Existe uma norma chamada RBAC 117, a regra brasileira de gerenciamento de risco de fadiga. Ela não é norma de piloto. É norma de aeronauta, e comissário de bordo é aeronauta. Ela é sua.

A ANAC propõe revisar essa norma para aproximá-la do padrão da FAA americana, menos restritivo. Na prática, a proposta em discussão elevaria a jornada para 14 horas, ampliaria os limites de horas de voo mensais e anuais e levaria o período noturno para 12 horas, sem contrapartidas equivalentes de mitigação de fadiga.

A categoria reagiu de forma organizada. O abaixo-assinado passou de 40 mil assinaturas e o Ministério Público do Trabalho também criticou a proposta. E tem um dado do próprio sindicato que resume tudo: em levantamento com mais de 3 mil tripulantes, mais de 90% dos comissários e pilotos afirmaram já ter dormido durante o voo. Isso não é falta de profissionalismo. É fisiologia.


Como usar isso em uma seleção


Um conselho prático. Se numa entrevista te perguntarem sobre segurança de voo, não responda com frase feita. Todo candidato diz que segurança é prioridade.

Fale de cultura de reporte. Diga que você entende que registrar uma pane não é criar problema para a empresa, é a única forma de a empresa enxergar o problema. Diga que sabe que existe uma norma de gerenciamento de risco de fadiga e por que ela existe.

Uma resposta assim mostra que você já pensa como tripulante, e não como candidato decorando manual.


Fontes consultadas e checadas para esta reportagem:

  • Agência Brasil, "Pilotos da Voepass não relatavam falhas nas aeronaves, diz Cenipa", julho de 2026

  • Metrópoles, "Cenipa aponta falhas na gestão e diz que Voepass operou com segurança degradada", julho de 2026

  • SNA, "SNA vê com preocupação matéria sobre laudo do CENIPA no caso Voepass", julho de 2026

  • CNTTL, "SNA reforça que revisão do RBAC 117 coloca em risco segurança de voo"

  • Repórter Brasil, "Queda da VoePass: tripulação estava sem descanso adequado", setembro de 2025

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