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Congonhas e Galeão: ventania desvia e cancela voos

  • Foto do escritor: Marcelo Bueno
    Marcelo Bueno
  • 30 de jul.
  • 3 min de leitura

Se você estava em Congonhas na tarde de 29 de julho, viu o painel virar um mural vermelho e provavelmente ouviu alguém dizer que o aeroporto tinha fechado. Não fechou. A pista esteve disponível o tempo todo. Quem decidiu não pousar foi cada tripulação, uma por uma.


Imagem ilustrativa gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA

Uma frente fria vinda do sul do Oceano Atlântico chegou à costa do Sudeste naquela quarta-feira e derrubou a operação de quatro aeroportos ao mesmo tempo: Congonhas, Guarulhos, Santos Dumont e Galeão. A nebulosidade aumentou e a temperatura despencou depois das 13h, acompanhadas de rajadas que puseram os limites das aeronaves à prova.


Quanto vento fez em cada aeroporto


Os números vieram da REDEMET, a rede de meteorologia do Comando da Aeronáutica, e estão na apuração do AEROIN. O Galeão registrou 56 nós, cerca de 105 quilômetros por hora. Congonhas marcou 38 nós, algo em torno de 70 quilômetros por hora. Santos Dumont chegou a 35 nós e Guarulhos a 34, ambos por volta de 64 quilômetros por hora. A Defesa Civil de São Paulo mediu uma rajada de 75,3 quilômetros por hora dentro da capital.

Fora dos terminais, a mesma frente fria cobrou um preço alto. Em Santos, uma pessoa morreu atingida por uma árvore derrubada pelo vento.


O tamanho do estrago na malha


Pelos dados preliminares do Flightradar24, na posição das 19h de Brasília, Congonhas foi o aeroporto mais castigado: 44 voos cancelados, 84 atrasados em mais de uma hora e 20 desviados para outros aeroportos. Santos Dumont teve 26 cancelamentos, 20 atrasos longos e 9 desvios, e chegou a ficar com operações suspensas até o tempo melhorar. O Galeão contabilizou 7 cancelamentos, 30 atrasos e 6 desvios. Guarulhos registrou 5 cancelamentos, 10 atrasos e 4 desvios.

Vale um aviso de método, porque você vai encontrar números diferentes por aí. Veículos de São Paulo, como Metrópoles e Gazeta de São Paulo, apuraram volumes menores para Congonhas em recortes mais cedo do mesmo dia, com relatos de 15 cancelamentos e 15 voos alterados em um momento e cerca de 30 operações afetadas em outro. Não é contradição. É a mesma tempestade fotografada em horas diferentes.

A Aena, concessionária de Congonhas, informou que toda a infraestrutura seguiu disponível para pousos e decolagens e que o atendimento ao passageiro continuou funcionando, orientando quem viajaria a consultar a companhia aérea antes de sair de casa.


Por que o comandante desiste do pouso


Vento de través é a limitação mais dura e mais silenciosa da aviação comercial. Cada aeronave tem um limite de crosswind e de vento de cauda publicado pelo fabricante no manual, e esse número não é sugestão.

Passou do limite, o comandante não tenta a sorte. Ele arremete ou vai direto para o aeroporto alternado. Os 20 desvios de Congonhas naquele dia não apontam falha de ninguém. Apontam o sistema de segurança funcionando exatamente como foi projetado para funcionar.


Como é estar na cabine em um dia desses


Para o comissário, uma frente fria dessas é o pacote completo da profissão em um único turno. Turbulência forte, serviço de bordo interrompido por segurança, passageiro com medo de voar entrando em pico de ansiedade.

Tem a arremetida, que assusta quem viaja pouco e exige uma explicação calma e firme para a cabine inteira. Tem o pouso em um aeroporto que não estava no bilhete de ninguém. E tem, depois de tudo, horas de solo com gente furiosa e pouca informação para dar.

Presta atenção neste ponto, porque cai em seleção: arremetida é procedimento normal, padronizado. Não é emergência. Saber transmitir isso com voz firme é habilidade técnica de comunicação, e habilidade técnica se treina.


O efeito jornada que ninguém vê


Os 84 voos atrasados em mais de uma hora só em Congonhas significam dezenas de tripulações empurrando o limite legal de trabalho. A Lei 13.475/2017, a Lei do Aeronauta, e o RBAC 117 limitam jornada e exigem tempos mínimos de repouso.

Quando o relógio estoura, o voo cai por falta de tripulante legal para operar, e não por falta de avião no pátio. É por isso que existe tripulação de reserva, e é por isso que um dia de vento vira efeito cascata que atravessa a madrugada.


Fontes consultadas e checadas para esta reportagem:

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